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Onda de acusações

De Waack a Spacey, não perdoamos celebridades, só políticos

Onda de denúncias e acusações contra atores, diretores e jornalistas contrasta com pesquisas eleitorais
09/11/2017 11:55 10/11/2017 00:12

Nicholas Kamm/AFP
Kevin Spacey, um dos mais célebres casos recentes dentro de uma onda de denúncias por assédio. Ele será apagado digitalmente de um filme já pronto de Ridley Scott
Ao longo deste ano, dentro do que parece ser uma epidemia planetária, houve uma série de denúncias (e punições) na esfera da grande mídia. No Brasil, o ator José Mayer, merecidamente, foi afastado da telinha após um episódio de assédio sexual. Nos EUA, também merecidamente, o produtor Harvey Weinstein entrou em desgraça total após múltiplas denúncias. E merecidamente casos parecidos estão rendendo dor de cabeça para Kevin Spacey, Dustin Hoffmann e o diretor Brett Ratner. Agora, o jornalista William Waack vai ter que prestar merecidas explicações após um episódio, parece, de racismo.

Antes que você diga que os perpetradores e acusados são todos homens, vale acrescentar que Mariah Carey também está sendo acusada de discriminação racial e assédio. Tudo bem, é um caso só, e talvez nem seja acusação procedente.

Todas as punições são merecidas, toda a indignação contra quem comete assédio ou racismo é merecida. Dá para dizer que a indignação é merecida mesmo levando em conta os fatos de Waack estar sendo afastado com base em um vídeo viralizado de bastidores com áudio quase inaudível e de Hoffmann estar sendo denunciado por episódios de vinte e trinta anos atrás. E dá para dizer que a punição é merecida mesmo quando se chega a paroxismos como a decisão do diretor Ridley Scott de deletar digitalmente Kevin Spacey de um filme pronto e colar no lugar imagens de outro ator.

Yann Coatsaliou/AFP
Harvey Weinstein, produtor de Hollywood acusado de estupro e abusos. Ele foi isolado pela indústria do cinema ao longo das últimas semanas
Ainda que tudo isso assuste um pouco, a reação ainda é merecida. Racismo e assédio são graves e, merecidamente, deveriam ser considerados imprescritíveis e inafiançáveis. Os agora acusados não foram exatamente enquadrados por afrontar leis ou regras. Pelo contrário, as regras e leis informais dos meios em que trabalhavam endossavam, informal e escandalosamente, suas condutas predatórias. Mas eles foram condenados no tribunal da opinião pública. Sofreram a justiça das ruas. A maior das punições, desde sempre, é aquela dos pares, não a dos juízes.

Só um detalhe incomoda. Por que atores, diretores, produtores e jornalistas - ou seja, gente da mídia - são exemplarmente punidos desta forma, mas outros não? Por que alguns merecem levar, outros não?

Não se trata de defendê-los. Quem assedia ou discrimina não merece mesmo perdão. Porém, o critério deste juízo inflexível não se aplica a outras categorias de acusados.

Duvida? Pense no caso daquele político popular acusado de roubos, de receber propinas, e que até já foi gravado - veja bem, gravado - se dizendo acima da Justiça. Ou o caso daquele outro político, igualmente gravado, que fez declarações racistas e preconceituosas. Estas duas figuras estão na frente das pesquisas de popularidade. Nos EUA, o presidente Trump já foi acusado de racismo, de sexismo e de discriminação social. E tem um largo séquito de apoiadores. Provavelmente será reeleito, quando a hora chegar.

Globo/Reprodução
José Mayer, afastado das novelas este ano após acusação de assédio
Os casos de acusações e até condenações judiciais contra políticos abundam. Ex-candidatos, detentores de altos cargos, ex ou atuais ministros. Se você fizer uma pesquisa sobre se as pessoas acham que são culpados, provavelmente a percepção pública será de que são. E uma pesquisa eleitoral, entretanto, vai absolvê-los. Muitos deles seriam ou serão eleitos.

Aparentemente, o mesmo fórum da opinião pública que está pronto a condenar atores, jornalistas e celebridades ao menor sinal de conduta inapropriada usa uma balança diferente para pesar os delitos de demagogos e políticos em geral. Um paradoxo curioso, porque numa democracia quem deveria ser julgado continuamente são os detentores de cargos eletivos.

Talvez esse ódio seletivo seja uma forma de sublimação. Na hora de votar, a gente releva problemas. Como as celebridades existem em um mundo próprio no qual não temos direito a voto, nós as punimos por serem celebridades e por não terem se comportado como as criaturas divinas e infalíveis que preferiríamos que fossem. São os deuses que nos traíram. Eles não nos merecem.

Divulgação
Mariah Carey também foi acusada. Um ex-segurança a acusa de discriminação racial e de assédio
Talvez haja uma sujeição atávica, ou algo mais psicanalítico. Meu chefe ou meu patrão me explora e até me rouba, mas não vejo problema nisso. É a ordem das coisas, o jeito que o mundo é. Mas quando aquela colega bem-sucedida e bonita fizer algo errado, vou desprezá-la e falar mal dela, talvez até exigir punições. Ela não tem o direito de ser linda, competente e falível. Isso torna seus pecados maiores. Ela não tem o direito de provocar meu desejo, de provocar minha inveja. Eu não mereço isso.

Ou, talvez, toda essa contradição seja a mais pura e simples hipocrisia. Deles e nossa.

E isso, amigo, é o que ninguém merece.


Diário de Cachoeirinha

XYZ

por André Moraes
andre.moraes@gruposinos.com.br

Assim como na tradicional coluna semanal de variedades do jornal ABC Domingo, o XYZ fala de cinema, tevê, quadrinhos, nostalgia e assuntos da cultura pop em geral. Informação e curiosidades com um toque de humor.

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