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Cotidiano | Entretenimento SEMANA FARROUPILHA

O curioso causo dos gaúchos esquecidos na literatura

Entre malogros literários e origens castelhanas, a curiosa história dos gaudérios que pouca gente lembra

Por André Moraes
Publicado em: 18.09.2021 às 03:00 Última atualização: 18.09.2021 às 09:20

O personagem do gaúcho tem farta literatura nas obras ligadas ao movimento tradicionalista e na bibliografia de autores como Erico Verissimo e Cyro Martins. Mas há alguns personagens malditos e esquecidos, que têm uma história curiosa
O personagem do gaúcho tem farta literatura nas obras ligadas ao movimento tradicionalista e na bibliografia de autores como Erico Verissimo e Cyro Martins. Mas há alguns personagens malditos e esquecidos, que têm uma história curiosa Foto: Alan Machado/GES

Em meio à Semana Farroupilha e às celebrações sobre o gaúcho, vale aproveitar o assunto e fazer um exercício diferente. Descobrir ou relembrar algumas figuras gauchescas lá da literatura que acabaram sendo esquecidas no meio dos pagos da memória cultural.

Quando se fala em gaúchos, há claro, toda uma coleção de obras ligadas ao tradicionalismo propriamente dito, com trovas, livros históricos, poemas e outros textos. E além disso, há as referências unânimes, como a série O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, ou a chamada Trilogia do Gaúcho a Pé, de Cyro Martins.

O Capitão Rodrigo descrito por Verissimo costuma ser citado como uma figura típica de gaúcho. Assim, também, os peões de fazenda descritos por Martins, escritor que buscou criar personagens que, diferentemente daqueles de O Tempo e o Vento, não eram estancieiros ou líderes mas integrantes da classe rural popular. Porém, tanto no caso das obras do tradicionalismo quanto no dos dois autores, trata-se da literatura do século 20.

Antes disso, embora haja escritores ainda hoje bem lembrados, como Simões Lopes Neto, houve outras encarnações do gaúcho na literatura. Alguns personagens foram esquecidos. A história de como e por que esse esquecimento aconteceu é interessante. De certa maneira, é uma jornada em busca da alma gaúcha.

A literatura construiu uma imagem mítica do gaúcho, hoje celebrada, que passa pela sua alma generosa, pela coragem, pela força rústica e, às vezes, por alguma bravata, como lembra o Capitão Rodrigo e sua famosa declaração “buenas e me espalho, nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho”. Porém, não foi sempre assim.

O gaúcho do cearense

Um dos escritores brasileiros mais famosos, o cearense José de Alencar, é um dos expoentes no Brasil do romantismo do século 19, que era caracterizado pelo resgate do regionalismo e do chamado culto ao bom selvagem, ou seja, a idealização de figuras telúricas, ligadas à terra. Alencar é mais lembrado pelos romances indianistas, como O Guarani e Iracema. Mas em 1870 escreveu um livro que acabou não dando muito certo: O Gaúcho.

Muita gente educada no Rio Grande do Sul cresceu ouvindo os professores de literatura dizerem que Alencar não acertou o espírito do gaúcho no seu livro ambientado no Estado. Entretanto, pouca gente se deu ao trabalho de ler o romance para entender o motivo.

O Gaúcho é a história de Manuel Canho, um ginete que começa o livro dedicado à missão de vingar seu pai, morto pelas costas por um castelhano. Antes de viajar para duelar com seu desafeto, ele visita seu padrinho, ninguém menos que o então coronel Bento Gonçalves, ao qual pede a bênção na missão. O militar não gosta muito, mas o autoriza.

Manuel encontra seu inimigo doente, e o ajuda na convalescença, a fim de poder derrotá-lo em armas mais tarde, o que faz meses depois. Ao longo dos meses seguintes ainda passará por vários incidentes. Antagoniza um chileno, que depois seduzirá sua noiva, e que ele mesmo obriga a casar com ela para preservar a honra da família. Mas com ele, também, terá um duelo até a morte. Como pano de fundo, a Revolução Farroupilha.

O protagonista Manuel é o típico herói romântico, forte e cheio de recursos, mas, como alguns dos índios de Alencar, caladão. Não gosta de gente e prefere a companhia dos cavalos, pelos quais até se arrisca.
As mulheres de O Gaúcho, por sua vez, estão longe das figuras fortes de Erico Verissimo ou do estereótipo das prendas. São mulheres sujeitas a uma sociedade cheia de regras, mas ao mesmo tempo maliciosas e sedutoras, especialmente quando dançam. Alencar parece tê-las calcado na literatura espanhola.

Acostumado a fazer pesquisas antes de escrever, José de Alencar moldou sua trama em parte na história gaúcha. Mas os tipos criados por ele, embora possam até ter sido inspirados em figuras factíveis ou verossímeis, não são aqueles que a literatura do RS preferiu consagrar. Os gaúchos de Alencar eram fortes mas vingativos, violentos e toscos. O próprio Bento Gonçalves do livro era um líder mas, basicamente, um projeto de caudilho.

Romance precursor

Curiosamente, outro romance do século 19, este escrito por um gaúcho, também não é muito elogioso.
O Corsário, de Caldre e Fião, foi um dos primeiros romances históricos brasileiros, é de 1953, publicado poucos anos após a Guerra dos Farrapos. Garibaldi é retratado como um bandido, um pirata que atuava no litoral e na Lagoa dos Patos, assim como o vilão do livro, um corsário italiano.

Os heróis de O Corsário são moradores de Tramandaí que ganhavam a vida saqueando navios naufragados no litoral. E também partem em uma missão de vingança. Em Porto Alegre, matam uma pessoa e vão presos. Ou seja, também neste livro os gaúchos não são exatamente o tipo nobre. Mas Bento Gonçalves é retratado de forma mais generosa, como uma liderança honrada – embora o livro enfoque também seu duelo até a morte com Onofre Pires.

Personagem platino

Por último, um gauchão consagrado na literatura continental, o herói de Martín Fierro, poema épico do argentino José Hernández publicado entre 1872 e 1879. É o mais lembrado dessa pequena galeria de gaúchos malditos. Inclusive, uma edição saiu em 2013 pelo Instituto Estadual do Livro e tem tradução de Nico Fagundes.

No prefácio da edição gaúcha, Fagundes comenta que o poema é um de seus preferidos, mas que o herói não é um de seus personagens preferidos. Não é à toa. O texto descreve aventuras no pampa e a vida difícil dos peões, mas seu protagonista é um encrenqueiro que deserta do alistamento militar compulsório, mata um homem e tem que se esconder no meio dos índios, os quais, por sinal, despreza. E vive reclamando de seu destino cruel.

Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra. No caso destes gaúchos esquecidos, até faziam façanhas. Mas modelo, decididamente, não eram.

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