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Igreja que ajuda a contar a história de Novo Hamburgo e da imigração alemã completa 190 anos

Comunidade Evangélica de Confissão Luterana fica no bairro Hamburgo Velho

Por Ermilo Drews
Publicado em: 06.01.2022 às 08:00 Última atualização: 06.01.2022 às 12:49

Uma igreja não é um amontoado de tijolos com torre, sino, altar e imagens sacras. Uma igreja é feita de suor, amor e fé. São as pessoas que dão vida a um templo. E nesta quinta-feira (6) a comunidade religiosa mais antiga de Novo Hamburgo completa 190 anos. Não há como falar da história da cidade e da imigração alemã e não mencionar a Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Hamburgo Velho.

Igreja do Relógio recebe concerto em celebração
Igreja do Relógio recebe concerto em celebração Foto: Ermilo Drews/GES-Especial
E se tudo que cerca a comunidade e o Templo Três Rei Magos é uma mistura de história e fé, a celebração desta data terá uma marca do passado restaurada para seguir sendo ouvida no futuro. Castigado pelo tempo, um dos primeiros órgãos de tubo construídos pela fábrica J. Edmundo Bohn S.A, referência na área no País, foi reformado depois de quase dois anos parado e três meses de trabalho árduo.

História

O fluxo de alemães ao Estado, que começou em 1824, se acentuou ao longo dos anos subsequentes, formando Hamburgo Velho. Apesar de não se saber com exatidão a data do surgimento da comunidade evangélica, convencionou-se 6 de janeiro de 1832 porque um ano depois, em 6 de janeiro de 1833, foi construído o primeiro templo, no mesmo lugar onde ainda hoje fica a Igreja Três Reis Magos - atual templo da IECLB na esquina da Rua General Daltro Filho com a Travessa Julio Kunz.

"Só depois da Proclamação da República, em 1889, quando ocorreu a diferenciação entre Igreja e Estado, que foi permitido construir a torre nos templos que não eram Católica. Parte desta estrutura atual vem daquela época. Por isso, antes, aqui era mais uma espécie de galpão onde os fiéis se reuniam", explica o pastor Mauros Werling.

Telhado também foi reformado

Werling e Schneider destacam restauração do órgão de valor histórico
Werling e Schneider destacam restauração do órgão de valor histórico Foto: Ermilo Drews/GES-Especial
Além da restauração do órgão, o telhado do Templo Três Reis Magos, conhecido como a Igreja do Relógio, foi reformado no último ano. "Foi justamente por chover para dentro da igreja que o órgão molhou e estragou", lamenta Schneider.

Aproximadamente R$ 150 mil em recursos da própria comunidade foram investidos para recuperar o telhado e o instrumento musical. Cerca de duas mil pessoas integram a comunidade. "Temos um grupo fiel de pessoas que contribui para manter tudo aqui", agradece Werling.

Fé e conhecimento acompanham comunidade

O pastor Werling destaca a tradição das comunidades de confissão luterana de criar sempre de construir uma escola e uma igreja nos locais onde se instalava. “Por isso, que sempre tem uma escola perto de uma igreja luterana.” Para o pastor, este exemplo demonstra que fé e ciência podem conviver em harmonia. “Não podemos esquecer a valorização da fé e do conhecimento. A ciência é fundamental, mas ela é determinada por homens, e homens são determinados por fé em alguma coisa ou não.”

Para ele, a dedicação dos antepassados é um legado que deve servir de inspiração para a comunidade. “Mesmo com toda dificuldade da época, eles não abriram mão destes valores, destes pilares, mesmo em tempos de crise. E hoje muitas comunidades mal conseguem se manter”, lamenta.

Vínculo mantido mesmo na pandemia

Como destaca o pastor, uma comunidade de 190 anos não chega lá sem enfrentar crises. A mais recente foi a pandemia, que obrigou o fechamento do templo em março de 2020, com reabertura em setembro daquele ano. A forma para manter o vínculo com os fiéis foram as transmissões via rede social, prática mantida até hoje.

“Algumas pessoas da comunidade ainda têm receio de vir e outras são idosas, têm dificuldade de locomoção. A tecnologia ajudou a gente se aproximar de todos, até de gente que nem mora mais aqui”, celebra Werling. “E é uma forma de mantermos o vínculo com a comunidade”, acrescenta Schneider. 

Instrumento histórico e complexo de tocar

Peraza e Terraza se dedicaram três meses na restauração do instrumento
Peraza e Terraza se dedicaram três meses na restauração do instrumento Foto: Ermilo Drews/GES-Especial
A cereja do bolo na celebração de aniversário será um pequeno concerto com o órgão recém-restaurado. Construído pela fábrica J. Edmundo Bohn S.A, referência na produção do instrumento no País, o órgão chegou à Igreja do Relógio em 1936.

A restauração começou em outubro pelas mãos do organeiro argentino Adrián Terraza, com o apoio do pianista venezuelano Adrián Peraza. Cabe a um organeiro construir e consertar órgãos. Terraza começou a aprender o ofício aos 13 anos num mosteiro beneditino de Rosário. De lá para cá estudou com referências da área no país natal e na Itália, se tornou mestre de música pela Ufrgs e também organista. Ou seja, ele também sabe tocar o instrumento. Por isso, se apresenta no concerto.

O especialista destaca a complexidade do instrumento. "Diferente de um piano, que é um instrumento de corda, este aqui é de vento. Precisa saber combinar os sons. Este órgão tem mais de 800 tubos, que são manejados por diferentes teclados. Este exemplar possui três teclados, mas pode ter até sete. É como se fosse uma orquestra num único instrumento musical."

Uma comunidade que tem história para contar

Igreja do Relógio e comunidade enfrentaram vários desafios
Igreja do Relógio e comunidade enfrentaram vários desafios Foto: Acervo da Fundação Scheffel

1822-1824: o primeiro colonizador a se instalar na região de Hamburgo Velho foi Nicolau Becker, abrindo um curtume e uma selaria na região. Em 1824 chegaram os primeiros imigrantes alemães, trazendo a fé de confissão luterana consigo.

1829: 254 colonos da margem direita do Rio dos Sinos solicitaram ao Império a instalação do pastor Friedrich Christian Klingelhoeffer para essa área com os mesmos direitos do pastor Georg Ehlers, que atuava em São Leopoldo desde 1824, com remuneração imperial.

1832-1833: pressupõe-se que a comunidade tenha se organizado de forma mais efetiva no ano de 1832. Na falta de informações mais precisas, a data de fundação da comunidade foi definida como 6 de janeiro de 1832, um ano antes da inauguração do primeiro templo, mas essa conclusão não exclui a possibilidade de a comunidade ser mais antiga.

1835-1845: a Revolução Farroupilha abalou a então Província de São Pedro e a Comunidade de Hamburgo Velho. Durante um conflito, uma bala foi atirada de um canhão para dentro do templo (a munição foi usada como peso de papel por um bom tempo). O pastor Klingelhoeffer participou ativamente da guerra, sendo chamado de pastor Farrapo, e veio a morrer em combate em 1838.

1914-1918: com a 1ª Guerra Mundial, os cultos, que eram em alemão, foram proibidos. Publicações em revistas, jornais e outros periódicos eram permitidos apenas em português. Cessou o repasse de verbas para a escola da comunidade. Ocorreram medidas restritivas contra alemães e seus descendentes.

1939-1945: na 2ª Guerra Mundial foi proibida qualquer língua estrangeira. Os descendentes dos alemães passaram a ser vistos como "nazistas" e foram perseguidos. O pastor Pommer, que atuava na comunidade desde 1937, chegou a ser preso por um tempo. Não houve registros nos livros atas durante esse período.

Fonte: Comunidade Evangélica de Hamburgo Velho

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