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Notícias | Região Ascensão política

Renovação na região se ateve mais a nomes do que a grupos políticos

Nominatas das principais cidades da região indicam que mudanças de nomes nem sempre significam renovação. A maioria dos candidatos apresenta trajetória político-partidária. E até outsiders têm experiência em eleições

Por Ermilo Drews
Publicado em: 21.11.2020 às 07:00 Última atualização: 21.11.2020 às 10:32

Na região, eleitores confirmaram quase metade dos atuais prefeitos em 2021 Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE
Os nomes até podem mudar, mas o poder político costuma ficar nas mãos dos mesmos grupos que se revezam no poder. É o que uma análise mais detalhada da nominata que assumiu cargos eletivos nas cidades sedes dos jornais do Grupo Sinos mostra. Realidade que se replica em vários municípios da área de abrangência do Grupo Sinos, onde quase metade dos prefeitos foi reeleita e muitos dos escolhidos já ocuparam o gabinete do chefe do Executivo. Quando se olha para o Legislativo, a situação muda pouco.

Em São Leopoldo, por exemplo, cinco dos 13 vereadores que assumirão em 2021 foram reeleitos. No entanto, somente um dos “novatos” não tem uma trajetória consistente no meio político-partidário, seja como dirigente, assessor, secretário de governo ou até mesmo vereador. O mesmo se percebe em Novo Hamburgo, Gramado e Canoas, onde os novos nomes não são novatos na política. Candidatos sem este histórico costumam ser líderes comunitários, ainda assim a maioria já tentou se eleger em pleitos anteriores.

Professor da Universidade Feevale, o cientista político Rodrigo Perla Martins observa que o discurso do eleitor por renovação, reforçado por muitos candidatos, ganhou força especialmente a partir da onda de protestos de 2013. “Ali havia uma profunda crise das representações. E na eleição de 2018, estes supostos outsiders da política ganharam visibilidade, muitos se elegeram”, analisa. O chamado candidato outsider costuma não ter histórico político-partidário e adota um discurso em que se diz fora do sistema, se autoproclamando a "nova política" e seguindo regras próprias nem sempre alinhadas com um partido. “O presidente Bolsonaro se elegeu com este discurso, mas ele foi deputado do baixo clero de Brasília por vários mandatos. Isso acontece com muitos deles.”

Para Perla, o que geralmente existe nas eleições municipais é uma ascensão política dentro dos quadros dos partidos. “Os caciques locais seguem tendências. Se o eleitor quer renovação, terá renovação, mas vai ser de quadros do grupo político, com raras exceções. Por mais que o candidato não tenha experiência na disputa de cargos eletivos, ele precisa ter uma estrutura partidária que o faça aparecer para o senso comum”, frisa. “Esta ideia de renovação, crise de representação, isso pega o senso comum da população que acha que o sujeito é novato. Mas a maioria tem uma trajetória.”

Onda de outsiders perdeu força

Professor da Ulbra, o cientista político Fábio Hoffmann considera que nesta eleição houve um ensaio na adesão pelo eleitor ao modo moderado de propor o conflito político. “Diferentemente de 2018, onde o clímax de alta polarização social foi precedido por uma crise econômica e o 'lavajatismo' como atores centrais que provocaram uma profunda crise de crença na política, em 2020 as escolhas do eleitorado sinalizaram a volta para política tradicional. Em 2018, partidos tradicionais do espectro político moderado haviam sido deixados de lado para candidaturas de outsiders, que foram bem-sucedidas nas urnas apostando na radicalização política, na pauta moral e varrendo pautas identitárias. Bom, no primeiro turno das eleições de 2020 tudo tem transcorrido de forma a crer que a onda que levou outsiders a serem eleitos perdeu força, enquanto forças políticas tradicionais que gravitam em torno do centro ganharam força e foram as grandes vitoriosas desta eleição", analisa.

Hoffmann frisa que cidades importantes da região metropolitana, como Novo Hamburgo, São Leopoldo, Nova Santa Rita, Gravataí e Cachoeirinha, expressaram nas urnas votações majoritárias pelos projetos de continuidade. “Seja pelos mesmos nomes, seja pela continuidade partidária ou programática com outro nome. Gramado votou pelo retorno do grupo político anterior e Canoas pode seguir o mesmo caminho no dia 29. Ambos os casos, não obstante, juntos com os demais citados, refletem a hegemonia de grupos políticos tradicionais.”

O cientista político observa que, no geral, candidaturas que acreditaram estar em cenário e ambiente de 2018 e procuraram fomentar suas campanhas com argumentos presentes naquele pleito se equivocaram. “As urnas mostraram claramente isso. Voltaram a ganhar tração em 2020 as forças de centro e centro-direita. Os resultados extraídos das urnas no pleito desse ano projetam um cenário para as eleições nacionais de 2022 mais moderado”, projeta. “O próprio Bolsonaro (que está sem partido) se afastou do seu arquétipo criado para as eleições de 2018 e, mesmo que precise do antagonismo mais extremado como forma de compor o conflito político e se posicionar no xadrez de candidaturas, dificilmente conseguirá comunicar aos brasileiros, com uma persuasão eficaz, este entrelaçamento com o grupo político do Centrão.”

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