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Quem cuida do idoso quando ele fica doente?

Neneca sofreu uma queda e ficou dependente da família, mas especialista pontua que não há uma única solução para situações como essa

Reportagem: Débora Ertel

 

Diante de uma população que cada vez vive mais, nunca se falou tanto em envelhecimento saudável como uma proposta para garantir mais qualidade de vida. No entanto, uma velhice tranquila, longe dos hospitais e com independência não é a realidade para muitos idosos.

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em pessoas com 75 anos ou mais a limitação para realizar atividades físicas é de 43,2%. Seja por problemas de saúde ou pelas dificuldades trazidas pela idade.

Quando ocorre a situação de que o idoso já não pode mais viver sozinho, muitas famílias enfrentam um desafio para dar conta desta nova realidade. Foi o que aconteceu com a família Ramos, que mora no bairro São Jorge, em Portão. Até 16 de janeiro deste ano, Neneca Maria de Ramos, 68 anos, casada, cozinheira aposentada, mãe de quatro filhos e avó de cinco netos era o esteio da casa, responsável por cuidar de todos.

Na tarde daquele sábado de chuva, sofreu uma queda em casa, bateu a cabeça e teve sua vida mudada radicalmente. Sofreu um traumatismo craniano encefálico, teve hemorragia, meningite e passou por 12 quadros de infecção hospitalar. Depois de quatro meses e meio internada e ainda vencer a Covid-19, veio para casa desenganada.

Desde então, a filha mais nova, Narriman Ramos, 24 anos, abriu mão da carreira de professora para cuidar da mãe. Neneca não caminha mais e ficou dependente dos cuidados dos familiares. "Não ficar com ela aqui em casa nunca foi uma possibilidade", garante a filha.

A tarefa nada fácil do cuidador

A pesquisadora da área de Gerontologia e professora da Feevale, Geraldine Alves dos Santos, diz que não há uma solução certa diante de situações como a enfrentada pelos moradores de Portão. Caberá à família avaliar suas possibilidades e capacidade de dar conta do atendimento que esse idoso necessita.

Segundo Geraldine, a situação é mais preocupante nas famílias carentes, onde não existe possibilidade financeira de pagar pela ajuda e as condições de saúde costumam ser mais debilitadas. “Não é tirar a responsabilidade da família de cuidar desta pessoa, mas auxiliar”, salienta, dizendo que a sociedade deveria encontrar maneiras práticas de dar suporte.

A pesquisadora pontua que nem todas as pessoas vivenciam o envelhecimento bem-sucedido e por isso há situações em que é necessário o cuidado de um terceiro.

O familiar deixa de trabalhar para cuidar do idoso, o que gera uma frustração, e esse idoso acaba se tornando um fardo. Não precisaria ser assim

Geraldine Alves dos Santos


Geraldine Alves dos Santos
Geraldine Alves dos Santos Foto: Divulgação

Se de um lado existe o risco de violência contra o idoso, Geraldine chama atenção que é preciso considerar o sofrimento do cuidador, que muda sua vida para exercer esse cuidado. “Há uma perda muito grande, imagina para quem cuida de um paciente com Alzheimer. São as mulheres as principais vítimas desta situação”, pontua. Elas são a maioria quando é preciso escolher quem vai deixar a carreira para assumir o cuidado do idoso doente.

Segundo a pesquisadora, decidir por uma institucional também não é uma tarefa fácil, pois é preciso manter o vínculo, já que o abandono afetivo é crime, conforme o Estatuto do Idoso.

 

 

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Os docinhos de Narriman

Neneca é conhecida no bairro São Jorge e, especialmente, na Comunidade Católica São Pedro, como uma cozinheira de mão cheia. Era ela quem comandava as panelas na produção da tradicional galinhada da igreja. Narriman conta que não herdou o talento da mãe para o salgado, mas sempre gostou de produzir doces.

Como deixou o magistério de lado para cuidar da mãe, para garantir uma renda decidiu criar a Bendito Docinhos, onde produz fudges. Enquanto Paulino cuida da esposa, a jovem faz da cozinha de casa sua confeitaria para dar conta de atender os pedidos dos clientes, que rapidamente foram chegando quando divulgou sua história. “Santa Tereza diz que entre as panelas o Senhor também anda. Entre as panelas muitos atos de amor são feitos e muitas superações acontecem”, escreveu ela em suas redes sociais.

Outra curiosidade é que a portonense hoje faz academia para fortalecer a musculatura da coluna, já que carrega a mãe no colo dentro de casa.

Narriman destaca que a família é unida e os quatro irmãos “pegam junto” nos cuidados com a mãe, apesar de ser ela quem faz a maior parte. No dia em que a reportagem visitou a família, Tânia Ramos, 36, levou a mãe para passear na sua casa. 

O que mostra o IBGE

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 indicam que 57% dos idosos que têm limitação funcional para realizar atividades diárias ganham até um salário-mínimo.

Neste mesmo ano, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD-C 2019) do IBGE mostrou que o número de familiares que se dedicavam a cuidar de pessoas a partir dos 60 anos era de 5,1 milhões. O que representa 10,5% das 49,1 milhões de pessoas que realizavam cuidados com idosos.

De acordo com essa pesquisa, monitorar ou fazer companhia dentro do domicílio (83,4%), auxiliar nos cuidados pessoais (74,1%) e transportar ou acompanhar para escola, médico, exames, parque, praça, atividades sociais, culturais, esportivas ou religiosas (61,1%), são as principais atividades requeridas por essa faixa etária. 

Direitos previdenciários

A Previdência Social prevê dispositivos para auxiliar as famílias que se dedicam ao cuidado do idoso. A advogada Maria Teresa Goldschmidt, especialista em direito previdenciário, pontua quatro benefícios.

O Serviço de atenção domiciliar, voltado às prefeituras; aumento de 25% no valor da aposentadoria para quem comprovar que precisa de cuidados especiais; e o beneficio assistencial que concede um salário-mínimo ao idoso acima de 65 anos que comprovar situação de miserabilidade.

Maria Teresa Goldschmidt
Maria Teresa Goldschmidt Foto: Divulgação

Além disso, Maria Teresa chama atenção para um benefício com discussão mais recente, que não tem previsão ainda na lei, chamado de auxílio-doença parental. Na prática, explica a profissional, o familiar responsável pelo idoso que necessita de cuidador, e que seja segurado pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), encaminha o pedido de auxílio-doença parental para si.

De acordo com ela, o objetivo é conceder ao cuidador o benefício que lhe substitua o salário justamente porque é provado o afastamento do trabalho por questões de saúde. No caso, não de quem está pedindo o benefício, mas da pessoa que depende legalmente de seus cuidados. “Sabemos que uma das responsabilidades dos filhos é zelar pela saúde de seus pais idosos e, neste caso, se o idoso não possui condições de arcar com suas despesas médicas e de cuidadores contratados, o beneficio poderia ser discutido”, salienta.

No dia a dia, a advogada atende diversos idosos, a maioria carentes, em busca dos direitos previdenciários. Segundo Maria Teresa, o SUS não dá suporte de documentação e laudos adequados para que os mais pobres, sem acesso à rede particular, consigam comprovar problema de saúde e assim, consigam acessar, outros benefícios.

“Eu acredito que os servidores do INSS poderiam explicar melhor o que é necessário e quais critérios precisam ser atendidos, principalmente para aqueles idosos que procuram seus direitos sozinhos, sem auxílio”, ressalta.

SUS em casa

Na rede pública, pacientes sem condições de se deslocarem até o posto de saúde são atendidos pelo SUS em casa, programa que beneficia muitas pessoas acima dos 60 anos. Em Novo Hamburgo, são 10.984 idosos cadastrados nas Unidades de Saúde da Família, sendo que 198 estão acamados (1,8%).

O atendimento aos idosos é realizado conforme avaliação das necessidades do paciente, podendo ser presencial no posto ou por meio de visita domiciliar da equipe.

Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, quando os usuários idosos não conseguem comparecer à unidade de saúde em razão de alguma incapacidade, a visita domiciliar permite conhecer a realidade e as necessidades dessa família. Essa prática é uma ferramenta de cuidado e de promoção da saúde, de busca ativa e identificação da demanda reprimida, que permite planejamento de ações.

Já os idosos que ganham alta do hospital contam ainda com suporte de acompanhamento do Serviço Melhor em Casa. O serviço é ajustado de acordo com o grau de necessidade por procedimentos mais complexos, cuidado que é compartilhando nestes casos com as equipes do posto de saúde referência do paciente.

No Município, as principais causas de morte entre os idosos são as doenças do aparelho circulatório (27,2%), câncer (23,5%), doenças respiratórias (16,1%), doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas (7,5%).

 

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